O Módulo Esteroidal: criando um Passaporte Biológico mais forte

O Dr. Alan Vernec, Diretor do Departamento Médico da AMA, refere os benefícios do Módulo Esteroidal para o Passaporte Biológico

15 de setembro de 2014

Numa comunicação especial para a revista PlayTrue da Agência Mundial Antidopagem (AMA), o Dr. Alan Vernec, Diretor do Departamento Médico da AMA, refere os benefícios que o Módulo Esteroidal trará para o Passaporte Biológico dos praticantes desportivos.

Pode ler a tradução para Português deste artigo abaixo e também consultar a versão original em Inglês, aqui.

Enquadramento

O estudo longitudinal de parâmetros biológicos variáveis de praticantes desportivos (ou biomarcadores de dopagem), existia muito antes da criação da AMA. Embora os fundamentos, quer para o Módulo Hematológico, que para o Módulo Esteroidal, estivessem já presentes há muitos anos, foi na sequência dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006, em Turim, que a AMA reconheceu a necessidade de estabelecer um robusto enquadramento científico e jurídico para os estudos longitudinais. Com a colaboração de Federações Internacionais, a AMA reuniu um grupo de peritos, no que culminou na publicação das primeiras Diretrizes Operacionais sobre o passaporte Biológico do Praticante Desportivo (WADA Athlete Biological Passport (ABP) Operating Guidelines), em 2009. Esta primeira versão incluía apenas o Módulo Hematológico.

Módulo Hematológico

São atualmente mais de 40 as Organizações Antidopagem que recorrem ao Módulo Hematológico do Passaporte Biológico, e o movimento desportivo começa a verificar os primeiros resultados. Houve um aumento de 240% relativamente aos casos de dopagem sanguínea, com um total de mais de 300 praticantes desportivos sancionados no período de 2008 a 2013, comparando com o período que antecedeu a implementação do Passaporte Biológico. Trata-se de um passo em frente, em termos de práticas antidopagem.

Chegada do Módulo Esteroidal

Com os sucessos crescentes que se começam a verificar com o Módulo hematológico, o próximo passo da AMA foi avaliar a introdução de um novo módulo para detetar o uso de esteroides exógenos. Os mesmos princípios básicos e procedimentos que já existiam na Diretrizes Operacionais do Passaporte Biológico foram aplicados à avaliação de perfis esteroidais. Este Módulo Esteroidal foi lançado no início deste ano.

Como funciona

Da mesma forma como sucede com o seu equivalente hematológico (sangue), o Médulo Esteroidal baseia-se na premissa segundo a qual amostras colhidas ao longo do tempo demonstram os níveis fisiológicos normais de um praticante desportivo que estão inalterados por quaisquer práticas de dopagem. O Módulo funciona através da análise de variáveis esteroidais de um praticante desportivo, que vão sendo recolhidas ao longo do tempo através das tradicionais amostras de urina. O perfil longitudinal é então analisado para se verificar se se encontram presentes quaisquer padrões atípicos. O Passaporte Biológico recorre aos próprios valores do praticante desportivo, em vez de recorrer a valores médios da população como base de avaliação. A maioria das pessoas tem um rácio de Testosterona/Epitestosterona (T/E) de 1:1, embora haja lugar a alguma variação. Se o rácio de T/E for superior a 4:1, então o laboratório realizaria uma análise por IRMS (Isotope Ratio Mass Spectrometry) para detetar a utilização de esteroides exógenos (não produzidos pelo organismo). Recorrendo-se a valores médios da população como base de avaliação, apenas os valores muito elevados resultariam numa análise por IRMS. Agora, no entanto, a aproximação caso a caso utilizada pela AMA facilita decidir em que casos uma análise por IRMS é adequada. Globalmente, isto permite uma avaliação mais refinada, eficiente, bem como uma melhor gestão de custos. Com base nos dados introduzidos pelos laboratórios antidopagem, o Modelo Adaptativo (o algoritmo presente no módulo do Passaporte Biológico do ADAMS da AMA) analisa os dados e se um padrão anómalo for detetado com base nos valores expectáveis do próprio praticante desportivo, uma notificação será automaticamente enviada para o laboratório em causa, para que proceda à análise por IRMS.

Benefícios

Esta abordagem mais personalizada evita a realização de análises por IRMS a praticantes desportivos com rácios de T/E naturalmente elevados, reduzindo desperdícios e custos, e também assegura que os praticantes desportivos com rácios de T/E anormalmente baixos, que até aqui podiam passar despercebidos às organizações antidopagem, sabem agora que também eles estão sob escrutínio por possíveis práticas de dopagem.

O Módulo Esteroidal difere do Módulo Hematológico na medida em que o primeiro não necessita de ser adotado pelas organizações Antidopagem. O Módulo Esteroidal opera através da tradicional análise às amostras de urina. Não há necessidade de controlos adicionais ou de trabalho administrativo, pelo que os custos são os mesmos dos controlos tradicionais. No entanto, podem suceder casos em que a análise por IRMS apresenta um resultado negativo, mesmo quando o padrão é atípico. Esses casos irão requerer uma avaliação suplementar por peritos, seja através da Organização Antidopagem, seja através da Unidade de Gestão do Passaporte Biológico (Athlete Passport Management Unit - APMU) associada com um laboratório acreditado pela AMA.

Ambos os módulos se devem complementar um ao outro e ser integrados no programa antidopagem global das Organizações Antidopagem. O Passaporte Biológico permite ao movimento desportivo identificar e selecionar praticantes desportivos para a realização de controlos direcionados, através da interpretação de dados realizada de uma forma inteligente e atempada, mas pode também ser utilizado para estabelecer diretamente violações de normas antidopagem, como previsto no Código Mundial Antidopagem.
O funcionamento eficiente do Passaporte Biológico – quer do Módulo Hematológico, quer do Módulo Esteroidal – requer a utilização do ADAMS (Anti-Doping Administration Management System), que é utilizado pela maioria das organizações antidopagem. A introdução do Módulo Esteroidal vai permitir às organizações fortalecer os seus programas com base numa utilização simples e automática dos dados previamente recolhidos de amostras de urina. O Módulo oferece uma forma estratégica de combater a dopagem no desporto, e funcionará como um forte dissuasor, acompanhando o constante progresso da luta contra a dopagem.

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